quarta-feira, 29 de junho de 2022

A assembleia municipal de 24 de Junho de 2022

UM – Passeava junto dos Paços do Concelho e vi a assembleia municipal (AM) iluminada. Reparei que era sexta-feira e provavelmente estava a decorrer uma sessão ordinária, pois estamos no mês de Junho, embora não tivesse tido conhecimento dela através dos jornais locais, como seria natural. Vim rapidamente para casa, abri o computador e procurei a página oficial (site) do nosso município. Apareceu-me com grande destaque o anúncio da Feira Medieval Viking, que vai decorrer em breve. Fechei o anúncio para ver a primeira página e nada. Reparei, no entanto, que lá no cimo, em letras pequeninas, corriam informações diversas e no meio delas, sem destaque, a informação da realização de uma sessão ordinária da assembleia municipal. Carreguei ali e fui encontrar mais informação sobre a sessão da assembleia municipal que decorria nesse dia e a indicação de que estava a ser transmitida em directo, podendo segui-la desde que carregasse "AQUI".

DOIS – Assim fiz e a sessão estava já a decorrer. Deparei-me com a sala de sessões apinhada (é uma sala bonita, boa para sede da AM, mas imprópria para sessões plenárias, dado o seu tamanho) com o presidente da mesa, Nuno Melo, a dirigir a sessão com o estilo e a experiência que lhe vem de mais de 20 anos de exercício do cargo; com o presidente da câmara Mário Passos, parco em palavras, manifestamente a adaptar-se a um ambiente parlamentar que não é o seu estilo; com o vereador Eduardo Oliveira, líder do maior partido da oposição, numa postura grave e pelo menos aparentemente serena; e depois, mas agora de costas, os membros da assembleia (deputados municipais e presidentes de junta de freguesia, nos termos do regimento). Mais atrás estaria o público, mas a câmara não deixava ver, pois é fixa e está colocada no fundo da sala.

TRÊS  Acompanhei boa parte dos trabalhos (até cerca da uma 1h da manhã) e retive como assuntos que despertaram mais atenção a discussão sobre as obras no centro da cidade, que mereceram a apresentação, antes da ordem de trabalhos, de um voto de protesto do PS e voltaram a ser debatidas mais tarde (ponto de "informações" do presidente); também a contratação ilegal pela câmara, segundo o PS, de uma técnica superior que fazia parte da assembleia e está ligada ao PSD (renunciou, entretanto) e, finalmente, um conjunto de desafectações do domínio público de parcelas de diversos loteamentos em várias freguesias do concelho. Assuntos seguramente com interesse.

QUATRO  Os meios de comunicação social, e nomeadamente a imprensa, farão o devido relato do que se passou e a mim resta-me dar apenas conta de alguns apectos que retive especialmente. O estilo tribunício ("a malhar") das intervenções de Jorge Paulo Oliveira e de Jorge Costa, líderes dos grupos municipais do PSD e do PS, respectivamente, e também de Armindo Gomes, líder do CDS. As intervenções mais serenas, mas devidamente fundamentadas, de Luís Miranda (PS) e de Tânia Silva (CDU), esta, que não conhecia, uma agradável surpresa pela simplicidade e clareza no uso da palavra. Outras intervenções ocorreram a merecer também a atenção, mas o meu tempo escasseia e não posso rever na net o que vi e ouvi (foram quatro horas de reunião). Os leitores poderão tirar também as suas conclusões se consultarem a página da AM, pois o vídeo da sessão está disponível.

CINCO – Participei na AM de 2001 a 2005 como membro da oposição e sobre essa participação escrevi um livro, sob a forma de diário, intitulado As Assembleias Municipais Precisam de Reforma, que está certamente à disposição na Biblioteca da AM (desejo que esta esteja bem guarnecida, pois há bibliografia que não pode ser ignorada). Na contracapa escrevi: "É falsa a ideia de que a assembleia municipal se esgota nas reuniões, ordinárias ou extraordinárias, que vai tendo. A assembleia municipal é constituída por membros que devem estar constantemente atentos à vida municipal em todos os seus aspectos (…)". Assim espero que suceda com os membros actuais. Ocorreram, desde 2001, progressos na organização e funcionamento do órgão maior do nosso sistema de governo dos municípios e isso só é de aplaudir, sem esquecer, no entanto, que ainda há muito caminho a percorrer para termos uma democracia local mais robusta.

(Em Opinião Pública, 29/06/22)

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