As obras de reabilitação do ex-hotel Garantia estão em curso e louvei-as em texto anterior (ver jornal Opinião Pública e no meu blogue). Entretanto, e perante opinião que ouvi de uma pessoa ligada à arquitectura, pedi-lhe que me desse uma perspectiva da sua área sobre essas obras.
Eis o contributo que recebi e que, com pequenas alterações, transcrevo, agradecendo e assumindo toda a responsabilidade:
No edifício do ex-Hotel Garantia existe uma identidade e um conjunto de características inigualáveis que se devem preservar. Caso contrário será apenas mais um edifício comum, que tanto pode estar no cruzamento da Rua de Santo António com a Rua Adriano Pinto Basto, em Vila Nova de Famalicão, como pode estar em Mirandela ou noutro sítio qualquer, sem referência e sem história.
Temos pena que não tenha havido essa sensibilidade pela parte do projectista e do promotor. Sendo esta uma Área de Reabilitação Urbana (ARU)/ Plano de Acção de Regeneração Urbana (PARU) de Vila Nova de Famalicão deveriam ser cumpridos um mínimo de requisitos previstos na lei, nomeadamente a preservação das fachadas e a manutenção de elementos arquitectónicos e estruturais de valor patrimonial.
Não se percebem estas intervenções na cidade, que a vão descaracterizando, ao longo dos anos. Para se conseguir um trabalho de excelência, tem que existir maior intervenção de todas as partes, não só por parte do promotor privado, como da câmara. Um edifício com a relevância que o Hotel Garantia tem precisava de ser alvo de um estudo mais cuidado.
Por que razão a câmara, por exemplo, não orientou o promotor para realizar um concurso de ideias? Sem tirar o mérito ao sr. arquitecto que projectou a intervenção, penso que Famalicão deve ter uma análise mais crítica e valorizar mais o seu património construído, que "reside basicamente em terem acumulado tempo, e não tanto na beleza nem na superioridade técnica ou artística do imóvel em si", pois, acima de tudo "a categoria do património é o reconhecimento da sua pertença a um momento histórico passado, o sabermo-nos diante de algo que sobreviveu à história e que a testemunha, que se tornou, por isso, memória física, e que surge ante nossos olhos como matéria onde se preserva o espírito de um outro tempo" (Cláudia Henriques – Turismo, Cidade e Cultura: Planeamento e Gestão Sustentável, Lisboa, 2003, p.196)
E esse espirito de outro tempo, assim, desaparece...
(Em Diário do Minho, 03/08/23)
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