quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Joaquim da Silva Loureiro (1936-2023)

"Nestas ocasiões costumamos louvar os que partem, enaltecendo as suas qualidades. Sobre esse aspecto, o município de Vila Nova de Famalicão, através da sua câmara municipal, decretou, muito justamente, dois dias de luto municipal e divulgou um texto bem ilustrativo. Merecem também ser lidos outros textos publicados nos meios de comunicação social e redes sociais.

Permitam-me que, em brevíssimas palavras, em vez de um elogio fúnebre, diga o que, no meu entender, Joaquim da Silva Loureiro gostaria de nos dizer agora.

Diria desde logo:

  • Nunca, nunca desistam de lutar pela paz no mundo e por uma sociedade livre, justa e solidária, como ordena a nossa Constituição no seu primeiro artigo.

  • Cuidem do nosso Planeta, que tão graves riscos corre, com um crescimento desenfreado e desigual.

  • Diria também, na sua condição de crente, que tenhamos sempre bem presentes a encíclica Pacem in Terris, do tão querido Papa João XXII, e as encíclicas Laudato Si' e Fratelli Tutti do Papa Francisco, que ele tanto admirava.

  • Diria finalmente que tenhamos, crentes, não crentes ou agnósticos, uma qualquer forma de transcendência que dê sentido à vida. Vida que ele deseja que seja longa e a melhor vida para todos nós!

Obrigado, Dr. Joaquim da Silva Loureiro!"

Notas:

Estas palavras que, por incumbência da família, pronunciei, com emoção, no fim da missa de 28 de Dezembro de 2023, na Igreja Matriz Velha de Vila Nova de Famalicão, precisam de umas notas que seguem agora:

A vida de Joaquim Loureiro desde que chegou à Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, na segunda metade dos anos 50 do século passado, caracterizou-se pela luta contra a ditadura, sendo perseguido e preso e tendo vida difícil mesmo quando chegou a Famalicão na segunda metade dos anos 60, incompreendido e criticado por muitos por aliar a sua posição política de democrata lutador por uma sociedade livre, justa e fraterna à sua condição de católico marcado pelo Concílio Vaticano II e pelo Papa João XXIII.

Proibido de exercer a profissão de professor (de que muito gostava) e qualquer outra função pública por recusar aceitar as proibições que o regime lhe impunha, foi na advocacia que encontrou a possibilidade de trabalhar e viver. Advocacia que desempenhou com elevado saber, fruto de muito estudo, tendo chegado a pleitear no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos em Estrasburgo.

Ao mesmo tempo que advogava, exerceu muitas outras actividades de interesse público, não cabendo neste espaço enumerá-las todas. Lembro apenas a presidência do Famalicense Atlético Clube, cargo de que se demitiu para não prejudicar aquela agremiação, pois a câmara municipal de então ameaçava deixar de a apoiar se ele se mantivesse como presidente; a fundação da secção de Vila Nova de Famalicão do Partido Socialista, logo em 1974, defendendo sempre o socialismo democrático e sendo eleito vereador e, mais tarde, presidente da assembleia municipal, cargo que exerceu com muita dignidade; a direcção do jornal Democracia do Norte, o primeiro fundado em Famalicão depois do 25 de Abril, tendo estado posteriormente na primeira linha da criação dos jornais Vila Nova e Opinião Pública; devendo ser realçada, ainda, a intensa luta pela defesa do ambiente como sócio e dirigente da Quercus.

Nestes últimos anos, era grande o seu entusiasmo pelo magistério do Papa Francisco e por duas encíclicas notáveis, uma mais dedicada à nossa casa comum (Laudato Si') e outra à fraternidade entre todas as pessoas (Fratelli Tutti). Lê-las ou reler será uma boa forma de lhe prestar homenagem.

(Em Opinião Pública, 03/01/24)

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